Falar sobre dinheiro não é feio

Faz algum tempo que protelo esse texto pelo mesmo motivo que todo mundo protela falar desse assunto: receio.

Brasil e o analfabetismo financeiro

Falar de dinheiro, no Brasil, pode-se considerar um tabu. Começa quando teu pai te ensina, ainda quando pequeno, que perguntar quanto uma pessoa ganha ou tem de dinheiro é muito deselegante. O que tem pouco não fala por vergonha, o que tem muito não fala por discrição. Falar de dinheiro é delicado, assemelha-se a falar de sexo com seus filhos.

A criançada chega na escola, passa incontáveis anos aprendendo a genética e reprodução de uma pteridófita, preocupadas se vão se lembrar da função do zigoto na hora da prova. Estudam infinitas horas para aprender a relação da tangente com o seno e o cosseno, aprendem como Pitágoras em centenas de anos antes de Cristo inventou seu amável teorema. Mas ninguém, sequer uma viva alma em todos esses anos, ensina as crianças sobre o que mais assombra as pessoas no decorrer da vida: dinheiro. Não aprendem o que é um juros composto, o que é poupança, inflação, taxa de juros, ativo, passivo e tantas outras coisas que é quase que necessário um cidadão saber.

Na grande parte dos casos não somos motivados na infância a conseguir dinheiro para comprar tal brinquedo, em geral ouvimos algo como: “isso não é para nós, isso é para gente rica, nós não somos ricos, filho”. Com poucos anos já ancoramos no nosso modo de pensar que somos desprovidos de dinheiro e precisamos nos contentar com o que temos. Tampouco somos ensinados a lidar com o dinheiro, guardar, poupar e quem dirá investir. O retrato geral da sociedade é ainda mais alarmante ao passo que falar de dinheiro é a mesma coisa que falar de dívida.

Como em grande parte dos meus textos eu acabo desabafando, este não vai ser diferente, que pena. No Brasil a verdade é que a roda gira na contramão da liberdade financeira. Um país onde o trabalhador força a demissão com o intuito de receber o fundo de garantia e poder quitar as dívidas, me desencoraja em dizer que tem salvação. Somado a isso ainda temos o querido seguro desemprego, que o que era para ser um suporte temporário, virou objeto de desejo dos empregados por ser dinheiro fácil. Ainda temos muito a aprender sobre consciência financeira no Brasil, ao mesmo tempo que desabafo pela carência, me motivo a escrever pela oportunidade de melhorar essa realidade.

Minha jornada financeira

Ultimamente, com o início da minha jornada profissional, por meio dos meus projetos de melhoria nas empresas que trabalho, pude poupar alguns reais. Nesses últimos meses consegui montar minha reserva de emergência, iniciar minha reserva financeira para a aposentadoria, contratar meu primeiro estagiário e fazer alguns investimentos para o futuro. Mas isso com certeza só foi possível com educação financeira.

Não sei dizer ao certo de onde, mas desde criança sempre fui meio neurótico com o meu dinheiro. Meu pai nas primeiras séries do fundamental me dava 5 reais para comprar um prensado inteiro e uma lata de Coca-cola na cantina, só que o mão de vaca aqui comprava meio prensado e trocava a lata por um copo de Coca, o resto eu guardava. Aos poucos eu tinha dinheiro para comprar um brinquedo, um jogo de vídeo-game ou para comprar o álbum da Copa do Mundo. E assim foi: brinquedos e álbum da Copa com o que sobrava da merenda, bola de futebol com o que sobrava das pequenas mesadas, viagens com o que sobrava das minhas bolsas de estagiário e hoje alguns investimentos com o que poupo dos meus projetos. Minha vontade de alcançar algo maior sempre foi maior do que um simples prensado inteiro e uma lata de Coca.

O namoro com as finanças não é de hoje, mas como diz um amigo meu: “leia de tudo um pouco, mas leia mais sobre o que tu gosta”. Não é por menos, livros de finanças sempre estiveram na minha cabeceira. E com o tempo, o assunto se tornou um pouco mais natural e interessante para mim.

A minha consciência financeira construiu-se a partir de alguns fatores: disciplina, controle emocional, estudo, planejamento e, claro, vontade de enriquecer.

1.Disciplina

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Talvez um dos fatores mais difíceis. Você sabe quanto é seu custo de vida mensal? Quanto você consegue poupar todos os meses? Ou pior, você sabe quantos meses você conseguiria sobreviver caso perdesse seu emprego amanhã, vivendo somente do dinheiro que você tem guardado?

Essas questões normalmente são nebulosas para nós, o dinheiro entra no início do mês, o dinheiro sai nas contas a pagar, o que sobra ora gastamos no crédito, ora no dinheiro, ora no débito, o mês acaba e sequer paramos para analisar o extrato.Disciplina é colocar no papel, é traçar um orçamento pessoal condizente com suas receitas e manter suas despesas de maneira saudável. É saber quantos meses minha reserva de emergência me mantém. Você deveria ter uma reserva de, segundo economistas, pelo menos 6 meses do seu custo de vida para só depois pensar em algum investimento.

2.Controle emocional

Disciplina é mais técnico, é manter suas contas em dia, ter clareza sobre os gastos e os rendimentos, já o controle emocional é mais subjetivo. Precisamos realmente do carro que temos? Da quantidade de roupas que enchem nossos guarda-roupas? Precisamos de uma casa tão grande? 

Esses dias comentei que queria trocar meu carro por um menor, mais econômico, e a reação foi: “vish, mas a coisa está tão feia assim!?”. Normalmente arcamos com gastos muito maiores do que deveríamos arcar. E o pior que fizemos isso conscientemente na ânsia de nos mostrarmos financeiramente bem sucedido na sociedade.

O resultado de toda essa festa financeira que fizemos todos os meses é a conhecida frase: “nossa, estou definitivamente precisando ganhar mais!”. Meu amigo, desculpe informar, mas o que você precisa é gastar menos! Quem aqui não quer ganhar mais?
Um dos livros que mais indico sobre finanças pessoais é o Pai Rico Pai Pobre, do Robert Kiyosaki, nesse livro o autor fala sobre o que é passivo e o que é ativo. Passivo é todo o investimento que nos tira dinheiro, exemplo do seu carro ou a casa onde você mora. Ativo é todo investimento que nos dá rendimentos, exemplo de uma aplicação ou de um imóvel para alugar. A nossa falta de controle emocional nos faz adquirir muitos passivos por impulso e poucos ou nenhum ativos.

3.Estudo

Aqui mora a parte onde julgo ser mais fácil de iniciar toda essa caminhada. O estudo é sempre o primeiro passo. Eu não vou na loja comprar um tênis sem antes estudar o tênis, os preços, características e benefícios de cada modelo. Você prefere fazer uma prova ao qual você estudou e se preparou ou fazer uma prova surpresa onde você não conseguiu sequer abrir o caderno?

O conhecimento está ao passo de um clique no Google para aprendermos sobre qualquer assunto. Existem muitos livros baratos para começar a aprender finanças, existem blogs muito bons, canais no YouTube, cursos EAD e tantas outras fontes. Particularmente indico alguns livros como Pai Rico Pai Pobre ao qual já citei antes, indico também a obra de George Clason, O Homem Mais Rico da Babilônia. Indico os canais no YouTube da Nathalia Arcuri, Thiago Nigro e do Bruno Perini: Me PoupeO Primo Rico, Você Mais Rico, respectivamente. Todas essas fontes ensinam finanças de uma maneira muito mais simples para nós que somos leigos. Entender finanças não é só coisa de bancário, contador e financeiro de empresa. Entender finanças é um bem que tu faz para o teu futuro!

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Ah! Inclusive, se você ainda paga taxas abusivas de anuidade ou então aceita sugestões do seu gerente de conta para qualquer renda fixa que ele lhe oferece, saiba que existem inúmeras outras soluções sem taxas, com rentabilidade muito maior e cartões sem anuidade! Sim, já existe tudo isso. Para você que ainda guarda seu dinheiro na poupança, fica aqui uma célebre frase de Tito Gusmão, um dos maiores financeiros do Brasil: “a poupança é uma merda!”. Entenda o porquê neste vídeo do Me Poupe.

“Tudo o que sabemos é pouco e a curiosidade é o que nos faz jovem.” Ivo Pitanguy

4.Planejamento

Aqui é onde a coisa começa a ficar interessante. Quanto mais planejado você for, melhores serão os rendimentos que você terá ou então menores as dívidas que você criará. O porquê é simples, quando você traça objetivos com prazo, você pode aplicar esse dinheiro em investimentos muito melhores do que simplesmente na poupança. Ou então, se você planeja uma compra com antecedência, você consegue juntar o dinheiro antes e barganhar ótimos descontos a vista.

finanças pessoais

Se você irá viajar daqui a 12 meses, guarde esse dinheiro em uma aplicação de 12 meses, muito provavelmente os rendimentos dessa aplicação lhe darão uma diária a mais no hotel ou um dia a mais de passeio. Isso vale para sua casa própria, seu carro, seu negócio ou então uma reforma. Planeje-se! Quero trocar o carro em 6 meses, quero ter minha casa própria em até 3 anos, isso te possibilita mais controle nas suas despesas, evitando financiamentos, parcelamentos com juros abusivos e dívidas.

Utilizar a consciência financeira não é tão difícil

Sempre achei o carro um recurso extremamente subutilizado. Em uma aula esses dias um professor comentou que cerca de 96% do tempo, nosso carro fica parado, sem utilidade alguma. No momento em que você tira o carro da concessionária ele automaticamente vale cerca de 15% a menos. Além disso, as despesas com um veículo pessoal normalmente são muito maiores que qualquer outra forma de transporte, seja táxi, Uber, ônibus, bicicleta e obviamente a pé. Grande parte das minhas despesas eram provenientes do combustível, estacionamento, IPVA e seguro do automóvel.

Visto todo esse contexto triste, resolvi mudar um pouco esse paradigma. Há algumas semanas disponibilizei meu carro para um amigo trabalhar como Uber. O resultado é super bacana, meu amigo está super feliz com a renda extra e com todos elogios pelo atendimento. Meu carro deixou de ser um passivo e passou a ser um ativo, agora além de cobrir todos meus gastos com transporte ainda consigo abater meu IPVA e seguro. E o mais legal de tudo: muitas pessoas se locomovem utilizando um mesmo veículo, diminuindo o trânsito caótico da cidade e as pessoas ainda podem beber sem causar acidentes e confusões.

Começar a pensar mais conscientemente sobre suas finanças é um importante passo para sua liberdade. Pessoas com lastro financeiro normalmente possuem mais segurança, independência e qualidade de vida. Riqueza não pode ser confundido com status, ostentação e esbanjo. Muitos vivem uma vida desregrada financeiramente quando novo e se permitem viver condições subumanas quando velhos.

Pensar em enriquecer não é ganância, é se permitir viver uma vida com qualidade e garantir um futuro digno.

Luiz Felipe

2 comentários em “Falar sobre dinheiro não é feio

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