Errar é humano, ou pelo menos deveria ser

Sou um brasileiro entusiasta. Tenho esperança no nosso país mesmo que isso possa parecer meio insano atualmente. Mas claro, tenho de concordar que a realidade não é das mais motivadoras. E se eu pudesse atrelar a nossa realidade a apenas uma palavra (que audácia a minha), essa palavra seria mentalidade.

Essa mentalidade é solidificada, ela é construída no passar dos anos de nossa vida. E começa cedo, em casa.

Mesmo que todos pareçam sábios repetindo a máxima de que “errar é humano”, vocês realmente acham que isso é colocado em prática? Você deixa seu filho colocar o dedo na tomada a primeira vez para ele aprender que dá choque? Ou você antes mesmo do guri nascer já está com protetores em todas as tomadas da casa?

As âncoras da famosa zona de conforto começam ainda quando criança, antes mesmo de termos ciência do que acontece em nossa vida. Ouvimos muitos nãos quando pequenos, e aos poucos vamos montando uma ideia inconsciente de que errar é errado, e não humano. Passamos a ter medo do não, do erro, do imprevisível. Nossa resiliência nunca foi tão baixa como ultimamente. A gente lida muito mal com o que não é esperado, sair do óbvio é apavorante.

Essa mentalidade gera o que falei no último texto sobre nossas decisões: nosso poder decisório é muito fragilizado.

Você, quando criança, não colocou os dedos na tomada porque alguém lhe disse para não fazer isso ou porque com protetores nem existia essa opção, a decisão de colocar o dedo ou não, foi pautada nas razões externas. Isso pode parecer uma decisão fácil, acredito que nenhum de nós prefira colocar os dedos nas tomadas. Entretanto, todas as nossas decisões pautadas em razões externas ao longo da vida, seja pela família, pelos amigos, pela sociedade, vão enfraquecendo nosso poder decisório. Ou, o que é pior, ficamos “viciados” em sempre procurar as razões externas para responder nossos anseios nas difíceis decisões.

Prontamente nossos caminhos passam a ser os mais fáceis, seguros, estáveis. Caminhos já traçados por alguém, com a fórmula pronta. E assim vamos vivendo de incentivos baratos, caminhos únicos e decisões fáceis, olhando somente para nosso próprio umbigo. Isso acontece porque a nossa mentalidade é assim, errar não é humano, e tentar fazer um mundo melhor não passa de ilusão.

Inclusive, esse é um assunto interessante. Vamos analisar as consequências dessa mentalidade.

No Brasil os concursos públicos são mais badalados do que cursos de medicina, administração e nem devo comparar com a quantidade de projetos inovadores que entram nas incubadoras. Incubadoras são locais onde novas ideias são estruturadas com o objetivo de tornarem-se empresas (tu já sabes que essa explicação é pra ti, mãe).

Continuando, o mais engraçado é que atualmente há uma massa de trabalhadores que reclamam do problema de liderança nas empresas, reclamam que seus chefes não possuem habilidades de um líder, não possuem valores. Esse é um assunto de senso comum praticamente. Inclusive existem estudos que mostram que dois terços das pessoas pedem demissão por causa dos seus chefes e não por causa das empresas.

Vocês conseguem enxergar a incoerência? As pessoas reclamam da falta de encaixe na cultura organizacional das empresas por causa dos líderes, das suas políticas, mas passam anos estudando para serem funcionários do governo, que curiosamente tem os piores exemplos de liderança desse país. Só que cargo público é sinônimo de estabilidade financeira, então dane-se meu discurso moral. Aos funcionários públicos que investem, empreendem, e buscam se desenvolver e melhorar o país e o mundo, minhas mais sinceras desculpas, mas vocês são a minoria.

Logo que comecei a dar os primeiros passos fora da curva em direção aos meus sonhos, os incentivos estranhamente sumiram, o discurso do entorno mudou. A desconfiança aumenta, gera uma angústia, as famosas frases do “não vai dar certo” viram corriqueiras. Talvez uma das minhas maiores motivações é sair do óbvio, mesmo que isso possa resultar em pouco incentivo de terceiros. Peter Senge, na obra A Quinta Disciplina, resume dizendo que: “é preciso coragem para ter visões que não façam parte da corrente social principal”.

Esses dias falando com um amigo, cutuquei perguntando porque não tinha feito mais estágios durante a faculdade, mais projetos ou até mesmo ter tentado abrir o  negócio que ele queria. A resposta não foi nada surpreendente pra mim: “não tive incentivo na faculdade”. Infelizmente a resposta da grande maioria das pessoas é essa. E lamento informar, você normalmente não terá incentivo, nem da escola, nem da faculdade, talvez nem da família e tampouco da sociedade. Quem se importa contigo, não quer ver você passar trabalho e errar inúmeras vezes. Quem não se importa, simplesmente desacredita seu sonho por inveja ou por não ter coragem de fazer o mesmo.

Dale Carnegie diz que “a maior parte das coisas importantes no mundo são realizadas por pessoas que continuam tentando mesmo quando parece não haver mais esperança”. Você não precisa de incentivo, você precisa de foco, de vontade e de um propósito. Aos poucos você vai criando um ímã para pessoas que pensam igual a você e a motivação passa a ser compartilhada.

No simpático livro Mais esperto que o Diabo, Napoleon Hill em uma das suas perguntas ao Diabo o indaga se uma pessoa com propósito definido estará sempre certa sobre seu sucesso. E sabiamente o Diabo responde dizendo que nem o melhor dos planos sempre dará certo, falhas acontecerão, a diferença está na derrota temporária e no fracasso. Pessoas com propósito sabem aprender a escolher novos planos após aprender com seus erros. Eventualmente seus planos dão certo e as levam ao sucesso. Durante toda a entrevista com o Diabo, Napoleon repete uma mesma frase: “toda adversidade traz consigo a semente de uma vantagem equivalente”.

fullsizeoutput_76cO erro é um importante passo para o acerto. Quando algo não dá certo, é somente um indicativo valioso para lhe mostrar que você precisa reajustar algo e tentar de novo. Algo não dar certo é muito diferente de fracasso. Fracasso não é cair, é continuar caído.

Pessoas de sucesso erraram muito mais do que as pessoas que nem tentaram, óbvio. Mas elas aprenderam mais, elas testaram, tentaram, arriscaram, investiram seu tempo e seu dinheiro. Steve Jobs foi demitido da própria Apple em 1985, Walt Disney faliu sua empresa antes de criar o desenho animado mais conhecido do mundo, Mickey Mouse em 1928. Se Thomas Edison tivesse desistido depois de suas primeiras milhares de derrotas temporárias nos experimentos, ele jamais teria desafiado a natureza e inventado a lâmpada incandescente comercializável, uma das invenções mais disruptivas da história.

Quando eu era menor me vangloriava em dizer que era perfeccionista, que burrada a minha. Não sou perfeccionista, porque ninguém é. Com o tempo aprendi que nada é perfeito, e, como diz o Karnal, tudo é perfectível. Perfectível porque buscamos continuamente o crescimento, a melhoria, a mudança, ou pelo menos deveríamos buscar, e sim, isso é uma crítica para você que é arrogante há 20 anos usando a desculpa de que nasceu assim. O romancista britânico Somerset Maughan completa dizendo que só os medíocres estão sempre no seu melhor.

E nesse caminho o erro é o precursor do aprendizado. Você dificilmente acerta mais do que erra.

John Wooden, dentre todas suas frases incríveis, tem uma que diz que: “a perfeição é uma impossibilidade, mas se esforçar para alcançá-la não é.”

Não deixe que coloquem protetores nas tomadas da sua vida.

Luiz Felipe

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