A habilidade por trás das escolhas difíceis

Esses dias, em uma aula do meu MBA, o professor disse que um bom CEO precisa ser rápido e convicto nas decisões. Bateu um frio na espinha, não que o meu sonho fosse ser CEO, mas o fato de eu não ser muito rápido e convicto me preocupava um pouco. Ao acordar a primeira decisão “difícil” é escolher a roupa, o relógio, o que comer de café, parece que tudo depende do humor, e talvez até meu humor varie um pouco.

Mas ainda assim, essas não são, nem de perto, as decisões mais difíceis da minha vida. Ao me deparar com escolhas como: onde morar, qual carreira seguir, casar, ter filhos, as coisas começam a chegar em um nível mais avançado de complexidade.

Inconscientemente a primeira coisa que nós fazemos ao nos depararmos com difíceis decisões é procurar uma âncora decisória. Esta âncora é algum fator que embasa e sustenta nossa decisão e normalmente procuramos isso externamente, em algum dado, em algum argumento de alguém próximo, familiar, colega ou amigo. A sociedade é, mesmo que indiretamente, a nossa maior âncora decisória, raramente escolhemos algo que a sociedade não aceitaria ou não “achasse” interessante. A sociedade entende-se como todo o seu rol de amigos, familiares, colegas, conhecidos, ambientes que você frequenta. Tudo que não é óbvio, será percebido com estranheza pelo seu entorno.

Obviamente as âncoras que seriam mais adequadas, seriam as pautadas em argumentos racionais. Entretanto, nas decisões difíceis âncoras racionais não existem, não existe uma opção melhor que a outra. Vi um TED genial esses dias de uma filósofa chamada Ruth Chang e ela diz que você não pode sustentar uma escolha entre ser engenheiro ou médico em fatores racionais ou razões lógicas. O que acaba acontecendo é algum fator presente no meio lhe guiar para a decisão, seja uma facilidade, um comodismo, uma aceitação ou até mesmo um status.

A construção da minha vida é montada pelas minhas decisões, e conforme eu decido meus caminhos por razões externas, minha vida fica à deriva do meio. Ao decidir algo difícil sem consultar minhas próprias razões internas, meus objetivos, sonhos e propósitos, vou descaracterizando minha jornada real da ideal. É comum encontrarmos pessoas, mais velhas, mais vividas, que largam tudo para fazer algo no final da vida completamente diferente do que sempre fizeram.

Quanto mais longe estivermos de onde gostaríamos de estar, maior será a angústia e maior terá sido o número de decisões sem razões internas que fizemos. O resultado da minha realidade hoje é o conjunto de todas as minhas escolhas até agora.

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A notícia não muito boa é que só existe duas maneiras de mudar o caminho em direção ao nossos objetivos antes negligenciados, retroceder algumas casas no jogo da vida e começar a escolher os caminhos seguindo o coração, os valores e os sonhos. Ou então começar a escolher novos caminhos a partir de agora e mudar aos poucos. O treinador que mais gosto (depois do Renato Gaúcho, claro), John Wooden, tem uma frase que diz “quando você melhora um pouco a cada dia, coisas grandes começam a acontecer”.

A diferença entre essas opções é que as vezes não temos tantos anos de vida ainda para mudarmos aos poucos, ou então já não conseguimos mais viver na angústia e a necessidade latente de darmos sentido as nossas vidas nos consomem. Essa diferença é baseada no tamanho do gap (“intervalo” em inglês mãe, não quero perder essa leitora) entre onde você está para onde você gostaria de estar.

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A opção de mudarmos aos poucos é pautada muito no planejamento e pouco na coragem. A opção de retroceder e trilhar o caminho que sempre quis trilhar a partir de hoje é pautado também no planejamento, mas muito mais na coragem e na vontade de ser feliz. Perdoe-me os céticos, mas ninguém é feliz fazendo o que não gosta.

Por que Leandro Karnal, Clóvis de Barros Filho e Mário Sérgio Cortella estão tão badalados ultimamente? Porque eles falam, no cerne dos seus discursos, o óbvio: a vida é curta para fazermos o que não gostamos, e essa geração nunca esteve tão em busca de um propósito como antes. O que eles (normalmente, não me julguem) não falam é que para sair de onde estamos e rumar em direção aos nossos sonhos exige coragem e confiança em nós mesmos. As pessoas que antes apoiavam, talvez estranhem as novas ideias. O dinheiro que antes ganhávamos talvez precisaremos ganhar menos, pelo menos no começo. Talvez precisamos vender o carro, abrir mão de algumas noites e finais de semana. Talvez precisamos nos ausentar um pouco (isso não quer dizer parar de viver, que fique claro) de seus ciclos de amizades e familiares. Talvez precisamos mostrar o quanto isso é importante para nós e, aos poucos, convencê-los de que estamos em busca de um propósito maior, e quem sabe até não motive-os de também fazer o mesmo. Isso talvez não pareça tão óbvio né?

“O tempo é aquilo que temos de mais precioso. Quando você menos espera, a vida passa, o tempo acaba, por isso não desperdice seu tempo”

Eu não sei se serão rápidas e convictas as minhas decisões daqui para frente, também não sei se um dia serei um CEO, mas posso garantir que minhas escolhas serão sempre guiadas pelo coração.

Luiz Felipe

3 comentários em “A habilidade por trás das escolhas difíceis

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