Business e futebol: Não é só um jogo

Estamos num país movido por paixões, muito mais do que pela racionalidade das pessoas. Hoje, vários brasileiros abrem mão de “estabilidade” financeira para seguir seus sonhos, crenças, ou seu partido político. Uma dessas paixões é o futebol, que, para muitos, pode ser facilmente comparado a um tipo de religião, por exemplo (pelo menos no meu caso). Em vários lugares já li ou escutei a frase “Não é só futebol” ou “Não é só um jogo”, embora existam pessoas que duvidam e digam: “MAS É SÓ CHUTAR UMA BOLA!” –  Para estes, deixo registrado aqui o meu repúdio.

Meus círculos sociais mais fortes foram construídos por meio do futebol. Descobri meus melhores amigos na equipe de futsal do colégio, enquanto era um aluno novo que vinha do interior e falava com um sotaque estranho. Eles me acolheram porque jogávamos juntos, era sincero.

Uma vez um amigo me disse que tudo que sabia sobre amizade, ele aprendeu com o futebol. Eu digo mais: A maioria das coisas que percebi sobre relações humanas, foi o futebol que me ensinou. Outro grande amigo já me disse “Cara, se tu quiser conhecer de verdade uma pessoa, tenta jogar futebol com ela” – faz muito sentido. Podemos, por exemplo, descobrir reações em situações extremas: É muito fácil identificar a personalidade de quem está perdendo um jogo de goleada. Ele terá a escolha de tentar virar o jogo ou simplesmente abandonar e “pular da barca”. Do mesmo jeito, podemos analisar uma pessoa quando o time está ganhando pela mesma situação, ela tem a escolha de respeitar o adversário e continuar jogando de maneira séria e competitiva, ou de tentar humilhar o adversário com um drible ou um lance de efeito.

No futebol, nos encontramos inseridos em um contexto maior do que a individualidade, fazemos parte de um time. Na empresa em que trabalhamos, da mesma maneira, também somos parte de um time (ou de um departamento, pro pessoal mais old school). No futebol, podemos jogar de goleiro, zagueiro, volante, meio campo, atacante, ou, às vezes, de técnico do time. Na empresa, podemos trabalhar no marketing, nas vendas, no setor financeiro, gestão de pessoas, ou ainda ser o gestor de uma área. Essa comparação do ambiente empresarial com o time de futebol faz total sentido.

Ambas atividades necessitam de um senso de coletividade muito apurado por parte de seus colaboradores (ou jogadores) – o lateral só vai subir para o ataque e não comprometer a defesa do time se o volante fizer a cobertura da sua posição. No contexto empresarial que estamos inseridos, a empresa em que trabalhamos só vai obter sucesso (lê-se fazer um gol, e ganhar a partida) se o marketing captar potenciais clientes para a equipe de vendas e converter esses clientes em resultado, por exemplo.

Alinhamento da equipe faz toda diferença. Não é só o o faturamento da empresa que conta para dizer se ela é vencedora no mercado ou não, muito menos o tamanho dela, sua força de marca ou o número elevado de colaboradores. A Kodak já foi uma empresa gigante e faliu em 2012, a Blockbuster era uma companhia gigante e faliu em 2013, em 2005 o Yahoo! era o maior portal de internet do mundo e chegou a valer US$ 125 bilhões – o resto da história vocês já sabem. Muitas dessas empresas perderam mercado por falta de inovação, mas, sem dúvidas, faltava alinhamento entre todos os jogadores dos times. Nesses times, provavelmente, o volante não fazia a cobertura para o lateral.

Na semana passada, fui jogar futsal com um time de amigos. Possuíamos cinco jogadores de linha e um reserva para jogar contra um time que tinha cinco jogadores de linha e oito reservas. Antes de iniciar o jogo pensei “Vamos tomar um saco de gols, eles tão em 13 jogadores e nós em 6”, mas a história não foi bem assim: Ganhamos por 3×0, e não tomamos gol durante uma hora. Foi uma ventania de carrinhos e contra ataques (nós tínhamos um time muito fechado); Só conseguimos fazer isso porque a nossa movimentação de marcação estava muito bem “alinhada”, tínhamos menos recursos, porém eles foram melhor alocados pelo nosso time.

Ainda no futebol, temos as figuras dos técnicos: Eles comandam toda a resenha do vestiário e orquestra tática dentro de campo. Impossível não lembrar dos nomes do Pep Guardiola e do saudoso Tite. Na minha opinião, essas duas pessoas teriam condições de conduzir times em qualquer contexto, seja no futebol ou nos negócios. O seu Adenor (Tite, para os íntimos) treinava o Corinthians e o Grêmio pelo menos duas vezes por dia, comandava até o treino de penaltis e escanteios, não mandava o auxiliar fazer isso por ele. Participar da operação da empresa dá autoridade e moral para o CEO e faz com que ele conheça o seu time, assim como hoje o Tite tem a seleção brasileira de futebol na mão. A proximidade do Adenor com a sua equipe faz com que ele tenha a confiança da boleirada e não tenha problemas em lidar com os egos de Neymar e companhia, por exemplo. Como uma pessoa se imagina como CEO de uma empresa de tecnologia, se nem usa direito seu smartphone? Ou pior, se não conhece a rotina da sua equipe de trabalho? Ensina, Adenor.

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Ensina, Adenor.

As comparações são infinitas e fazem total sentido. Sou muito grato por jogar futsalfutebol de campo com meus amigos: Diretamente, eles tem me ensinado a trabalhar numa startup. Poucas vezes fui o melhor em campo ou em quadra, mas tenho o prazer de dizer que sempre fiz parte de ótimos times, nos negócios ou no futebol. Para quem trabalha com negócios, praticar qualquer esporte coletivo ajuda no relacionamento profissional e ajuda a entender equipes, egos, caráter, humor e emoções. O Romário já disse que o Pelé calado é um poeta, mas, embora eu concorde com o baixinho, tem uma frase do rei que define tanto o futebol quanto o mundo dos negócios: Quanto mais difícil é a vitória, maior é a felicidade ao ganhar.

Não é “apenas” um jogo.

 

6 comentários em “Business e futebol: Não é só um jogo

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